Era um pouco triste, coitada da rapariga. Usava aquela trança à algum tempo, e nunca nunca eu a tinha visto de cabelo solto. Nem mesmo quando estive a dividir o quarto com ela na viagem do colégio há já uns dois anos. Fazia-a sempre quando ia eu me ausentava para comer umas bolachas e beber algum chá antes de ir dormir. Lembro-me de um dia ela ir ao cabeleireiro, e toda a gente do colégio com curiosidade de a ver com os fios ruivos que lhe cobriam a cabeça, soltos como penas no ar, foram também cortar o cabelo. Até a Valéria, que cusquices não era nada com ela. Nesse dia, a rapariga não pôs lá os pés. Cortou-o ela em casa e no dia a seguir notava-se que tinha dado um jeito ao cabelo com a tesoura de costura da mãe. Eram estes os meus pensamentos naquela tarde de Verão, sentada na esplanada. Eram férias e toda a gente tinha ido para a piscina pública que fica perto da livraria da Paulinha. Eu cá não costumava ir. Não gosto lá muito de aparições ao público. Já bastava daquela vez que tive de ir ler na missa de 6ªferia. Foi um sacrifício, mas eu li. Lembro-me que a minha voz tremia como um daqueles cães esquelético que andam na rua, sempre a rondar os caixotes do lixo.

Sem comentários:
Enviar um comentário